Car@s amig@s,
Venho informar que a minha ausência do blog se deve ao facto de estar a trabalhar num projecto um pouco mais sério, proveniente de um convite muito especial que tive, mas ainda relacionado à escrita.
O tempo nem sempre dá para fazer as coisas ao ritmo que desejava, porque tenho outros projectos em mãos, mas estou muito entusiasmada com a oportunidade que se avizinha.
Espero ter notícias muito em breve e que possa também continuar a contar convosco desse lado.
Beijinhos e obrigado por tudo.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Entrevista de emprego - Parte 2
(foto retirada da internet)
Quando a vi na sala de espera, o meu coração disparou.
Reparei que ela ficou nervosa por me ver, o que talvez fosse um bom sinal. Tive
vontade de mandar as candidatas todas embora, a minha assistente, e chamá-la
para entrar na minha sala, mas não podia ser. Tinha de fazer as entrevistas em
termos e concentrar-me para não dar muito nas vistas.
Enquanto abria a porta para uma candidata entrar, ou sair,
fitava-a, e ela a mim. Estava linda, de uma forma clássica e com bom gosto.
Aquela saia cinzenta ficava-lhe muito bem, contornando aquelas coxas roliças, e
ia ficar ainda melhor depois que eu a amarrotasse com as minhas mãos.
Tentei despachar as candidatas o mais rápido que pude e,
antes de ela entrar, dispensei a minha assistente, com calma, e tentando não
dar muito nas vistas. Eram quase horas de almoço e foi uma boa desculpa.
Ela estava cada vez mais nervosa, e via isso a cada passo
que ela dava em direcção à porta do meu gabinete. Sentia o seu perfume cada vez
mais perto de mim, e isso enlouquecia-me. Um misto de lembranças criou um
turbilhão na minha cabeça e o meu membro já começou a dar sinais.
Fechei a porta atrás dela e, quando me dei conta, ela já
sorvia a minha boca e tinha uma perna à minha volta. Esta mulher dava cabo de
mim! Fazia-me esquecer completamente a vida enfadonha que vivia, entre uma
mulher que não me dava carinho, as contas que tinha para pagar, as idas ao
ginásio apenas para libertar este fogo que tinha dentro de mim.
Encostei o meu pau à vulva dela, para que sentisse como ela
me deixava louco. As calças não apertavam muito, pois eram de fato, mas a tenda
já estava mesmo armada e agora tínhamos de resolver o assunto. Nunca fui de
perder tempo, sobretudo quando já sei em que pé as coisas estão e, enquanto a gente
se beijava, eu já enfiei a mão dentro das cuecas dela e senti que estava
completamente molhada. Passei o dedo no grelo dela e ouvi-a dar um gemidinho
meio que contido e deu-me uma mordida no lábio.
Tranquei a porta, só para garantir, peguei nela pelas
nádegas e levei-a para cima da mesa.
(...)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Cuidado com o que desejas
(imagem retirada da internet)
Noites longas. Uma multidão de gente à minha volta. No meio das pessoas
consegue-se quase perceber a situação que estão a passar naquele momento. A
situação interior. A que não deixam que ninguém veja, mas que querem a todo o
custo que seja entendida por alguém até desconhecido. Numa destas noites,
foi-me apresentado o rapaz. Nem me lembro a que propósito. Mas não me esqueço,
sim, que num instante algo cá dentro me fez parar no tempo. Desconcentrar.
Olhar para o lado, fechar os olhos, voltar a olhar para ver se ele ainda estava
lá. E estava. Era real. Giro e atraente, nos meus bons termos. Apostei que ele
teria cerca de vinte e três anos de idade, mas estupidifiquei-me quando soube
de fonte directa que afinal ainda ali rebentavam os dezassete. Como que uma
faca a trespassar-me o coração, morri por dentro e congelei por fora, mantendo
um sorriso de frustração. De facto, as feições dele não aparentavam a idade que
tinha. Há aqueles que parecem mais novos e aqueles que parecem mais velhos. E
estes têm sempre a particularidade de ostentar traços masculinos que
normalmente só se vê em capas de revista. Enfim, o pormenor da idade
interessou-me para saber com que tipo de mentalidade estaria a lidar, pois mesmo
para desenvolver uma conversa teria de me adaptar, como um professor se adapta
às várias faixas etárias dos seus alunos. E novamente, este seria mais um
"filho" para a minha colecção. Entenda-se um "filho" como
um daqueles amigos da noite, que vamos vendo com alguma regularidade, que vamos
sabendo com quem andam e dos sucessivos desgostos amorosos que apanham, que
vamos abraçar e reconfortar quando se sentirem sozinhos e abandonados, que
iremos piscar o olho em tom de sinal único que só nós os dois conhecemos, a
quem perguntaremos o que se passa quando os sentirmos apáticos.
Mas apatia foi
coisa que nunca vi neste gajo. Nas várias noites que foi aparecendo ao pé de
mim, estava sempre bem disposto, pulava, gritava... e fazia questão de me tirar
o ar sério da cara. Eu ali a tentar manter uma postura sarcástica, e ele a
fazer-me cócegas. Tentava responder da mesma forma, mas ele fugia. Com o passar
do tempo, fomo-nos conhecendo um pouco melhor, já fora do ambiente habitual. O
espanto que era saber que naquela cabeça jorravam litros de cultura sobre
determinados assuntos que para mim também eram interessantes. Cativou-me muito
por isso. Tive de pensar sozinho várias vezes em como eu próprio teria de ter
cuidado com o que desejava. E sim, eu desejava-o. Mas não sei bem como... Seria
a nível sexual? Não. Seria a nível emocional? Não. Seria a nível afectivo,
querendo-o como um amigo no meu muito fechado círculo de amigos? Talvez, mas
duvido um pouco, porque não se coadunava com os restantes. Era, portanto, uma espécie
à parte. Uma espécie a manter. Um rapaz a enjaular com uma grilheta e manter
enclausurado para sempre numa cave, onde eu visitaria quando necessitasse de me
lembrar que há pessoas muito novas que ainda pensam e agem com todos os
parafusos.
Apaixonei-me, sim.
Mas apaixonei-me sem reacção, sem nada fazer. E sem nada querer sentir.
Queria-o para mim, sabendo que jamais poderia ser meu. Queria não fazer amor
com ele, pois sabia que jamais seria para sempre. Desejei-o desde o primeiro
momento em que o vi. E continuei a desejá-lo, mesmo sabendo que tal desejo
alguma vez fosse desaparecer. Não o esqueci, nunca. Mantive-o aqui dentro, como
uma memória, pois aqui dentro tudo é possível. Tudo é infinito. E aqueles
momentos que pareciam caminhar para o impossível guardaram-se, como quem
escreve um livro.
*****
5 ANOS DEPOIS...
*****
Circulava eu em
direcção a casa, passando pelas avenidas já quase desertas da cidade, quando o
telemóvel apita e recebo uma mensagem. Era o rapaz, a perguntar se era eu que
ia naquele carro. Respondi prontamente e estacionámos perto dali, num sítio
mais isolado. Eu cheguei primeiro, por isso fiquei com aquela expectativa de
ver a cara que já não via há vários anos. E fiquei estupefacto ao notar que
algo estava diferente, mas não muito. Acho que noutra situação não o
reconheceria. E sim, era mesmo ele. Senti o coração a bater a mil à hora. Em
poucos segundos, perguntei-me se ele estaria igual, se ele me iria fazer
cócegas, se me iria falar do que tinha andado a fazer este tempo todo, se me ia
tocar nos braços e empurrar-me como sempre fazia. E como os amigos normais que
se costumam ver com regularidade, olhou para mim, pegou no tabaco e nas chaves
do carro e veio para o meu carro, para o lugar do pendura. Reagi naturalmente,
como se nada fosse.
- Então? - gritou
ele. - Há tanto tempo que não te via, que não sabia nada de ti!
- Pois, é verdade.
Acontece... Estás mais gordo.
- Eu não estou mais
gordo, estou crescido. Eu cresci.
- Desculpa?... Eu
conheço essas pernas. Estás mais gordo e ponto final.
Na verdade, estava
só um bocadinho... preenchido, digamos. Porque quando o conheci, a estatura
dele era bem magra. Não muito alto, mas magrinho. As feições eram as mesmas,
mas mais... masculinas. De facto, tinha crescido. Lamentou-se com o facto de
não andar a fazer exercício físico. E que então seria por isso que o corpo dele
não estava cuidado, mas que iria tratar disso assim que tivesse tempo. Mal
sabia ele o quanto eu o preferia assim. Assim... ou de qualquer maneira. Mas a
minha função aqui sempre foi olhar, observar, ouvir, aturar. Cada vez que
estava com ele, sentia-me perseguido por placas amarelas e vermelhas, a voar à
volta dele com asas de anjinhos e com letras bem garrafais "NÃO
MEXER", "ATENÇÃO! REDE ELECTRIFICADA!", "NÃO É PERMITIDA A
ENTRADA A PESSOAS ESTRANHAS AO SERVIÇO", "CUIDADO COM O CÃO"...
Do género: olha, mas não toca. E sempre respeitei essa regra. Ignorei sempre se
na realidade queria mais do que isso ou não. E afinal, o que seria o
"mais"?
E ele falava,
falava, falava. Eu respondia serenamente. Respeitando o espaço de cada um.
Foram poucos os minutos até eu ouvir a afirmação:
- Nem sei porque é
que passámos tanto tempo sem falar...
E de repente as
placas evaporam-se. Até parece que consegui ouvir o som de bolhas a rebentar
sucessivamente. Arregalei os olhos e procurei uma justificação plausível para
responder e cortar o silêncio que se instalou. Retorqui com o facto de já não
frequentar tais meios e fui interrompido com o facto de ele ter estado numa
relação durante algum tempo, mas que agora estava solteiro. E que assim queria
estar. Alívio. Confesso que não esperava ouvir aquela afirmação, pois não tomei
em consideração que, da mesma forma que não o esqueci, ele também não se
esqueceu de mim.
A forma de falar que
ele tem deixa-me sempre abananado. Ora é capaz de estar a dizer uma piada com
um ar muito sério, à espera que eu entenda depressa e que me desfaça em risos.
Por outro lado, também consegue em micro-segundos exprimir-se de forma
eloquente e, claro está, fazer-me rir quase sem motivo. É essa a grande
particularidade. Aquela boa disposição que me é atirada sem esperar nada em
troca. Fazia-o mesmo por gosto. E eu começava a sentir-me incomodado. O meu
riso já estava a ser forçado; então, para não parecer estranho, parti para
assuntos profissionais e familiares. São sempre coisas sobre as quais não há
muito para rir. Perdemo-nos durante mais de uma hora naqueles assuntos, entre
cigarros e cigarros. Ele já andava a fumar demais; dois por cada um que me
apetecia. Já estávamos ali desde as duas da manhã e eram agora cerca das quatro
e meia. Os assuntos considerados normais estavam já esgotados. Mas nem eu
insisti em demonstrar o quão cansado estava, nem ele se dignou a dizer que
tinha de ir embora. Eu queria ir-me embora. Mas... não queria sair dali. Ou
melhor, não queria que ele saísse dali. Por momentos, passou-me pela cabeça
dar-lhe uma marretada, enfiá-lo na bagageira, pegar fogo ao carro dele mesmo
sem motivo aparente, e fugir do país, sem destino. Agora serias meu e só meu.
Eram poucos os
momentos de silêncio, mas sem dúvida este vinha mais da minha parte. Eu
continuava sempre a manter a postura de observador. E percebi algo que não
tinha percebido antes. Ao olhar para ele, quando virava a cara para o lado, reparei
nos pormenores. As sobrancelhas carregadas, o cabelo espetado, a barba serrada
por fazer há dois dias, o nariz pequenino, os olhos grandes e profundos,
rodeados pelas pestanas negras, o queixo firme com a mandíbula que não parava
quieta. Ele falava, falava, falava e eu pensava para mim "Foda-se, parece
o Colin Farrell!". Às tantas, tal eu me fixei nesse pensamento, que já me
imaginava a chamá-lo por esse nome! O actor tem aquele ar de "cabrãozinho
sem dó" e o meu Colin era como que a personificação adolescente do actor.
Talvez pela sua incansável aptidão para gozar com todas as conversas. Mas que
até aqui pareciam amistosas.
De todo, o jogo deu
uma grande volta. Assim que começou a conversa das experiências sexuais
passadas. Passada meia hora, estava eu a meter o cotovelo entre as pernas para
esconder uma de várias tesões que ia tendo ao longo do tempo. Ele estava mais
atento do que eu pensava e no meio das confissões que nada me interessavam,
perguntou:
- Porque é que
estás assim com o braço? - apontando.
- Para sentir o
mínimo de conforto. - respondi eu, como se tal fosse verdade.
E continuei a
ouvi-lo, com o queixo apoiado na outra mão, olhando. De vez em quando, sentia o
solavanco por ele me bater no braço direito enquanto que falava, como um acréscimo
de atenção. Ao fim de tantos solavancos, deixei o braço cair para cima da perna
dele, facto que ia justificar como uma interrupção para fumar um cigarro. Mas
não tive a oportunidade para me exprimir, pois assim que a mão caíu em cima da
perna, foi logo agarrada pela mão dele. Deixei-me estar. Agora olhava para as
mãos dele: uma que gesticulava como que a indicar onde fica a Noruega, o Congo,
a China e a Argentina, e a outra a segurar a minha. Em poucos minutos, já um
dedinho estava a massajá-la, suavemente. Não demorou muito até que os ânimos se
exaltassem e os toques corporais aumentassem para um quase abuso. Desde as
carícias faciais às massagens nas pernas, muito perto dos genitais. Pelo meio
as brincadeiras das cócegas, que levam sempre a um aperto dos braços, que por
sua vez levam a um puxar do pescoço e que por fim se colmatam num olhar
provocador que despoleta um beijo. Mas não um curto. Um longo, molhado, quente
beijo. Seguido de outros tantos. Calmo, sedutor, sedoso. E quando parecia que
ia acabar, revelava-se outro mais forte, sugante, bruto. A provocação
continuava com o afastar da boca, metendo a língua de fora como quem diz
"Queres? Então vem cá buscar...". E os beijos persistiram durante
quase uma hora. Até ao raiar do sol! Com direito a público, que se dirigia para
os respectivos locais de trabalho. Podiam claramente perceber o que se passava
dentro do carro. Mas também não era nada demais; só dois gajos a curtir um com
o outro. O pior seria se percebessem que ao mesmo tempo que nos beijávamos,
também apalpávamos as pilas um do outro, por cima da roupa. E estavam ambas bem
erectas.
A partir daqui a
coisa tornou-se muito pessoal. O relato de experiências de ambos os lados já
estava a surtir um efeito de comparações no âmbito do "e se...". Começaram
a surgir as questões começadas por "e se..." que se foram
intensificando. Verificou-se um grande interesse da parte dele por saber como é
que eu desempenhava o meu papel no sexo. Expliquei exactamente como é a minha
postura em várias situações e como é que eu encaro o sexo. Fui interpolado pela
pergunta:
- Se fosse comigo,
como é que achas que ia ser?
Pensei por uns
instantes, olhando para o horizonte. Voltei o olhar para ele e disse:
- Acho que não iria
tirar os meus olhos dos teus. Tenho a certeza disso.
- Ah é?...
Parece-me bem. - resposta pouco evasiva dele.
Levantei o
sobrolho. Apercebi-me do quão longe já ia a conversa e do risco que eu estava a
pisar. Onde estão as placas imaginárias quando precisamos delas?! Mas agora era
tarde, porque:
- Queres ir dormir
comigo?
- Dormir contigo? -
retorqui. - Como assim? Agora?
- Sim, íamos aí
para um sítio qualquer, uma daquelas pensões.
De facto, o meu
cansaço era tanto que se visse uma cama iria mesmo dormir. E sei que talvez não
fosse bem esse o propósito daquela pergunta. E não era, claro que não. De tal
forma estava a conversa quente, já tinha perdido o número de vezes que as
calças me pareceram apertadas, tudo indicava que eu e ele íamos partir para uma
cena de sexo.
E acordei para a
vida. Eu sabia que se fosse naquele momento, a coisa não ia correr tão bem.
Prontamente, sugeri-lhe que o fizéssemos no dia seguinte, precedido de um
jantar a dois. Teve de ser, eu senti que com ele não podia ser sem mais nem
menos, a coisa tinha de ser especial. Ele prontamente aceitou. E ficou
combinado.
*****
Acordei com ele no
pensamento. Podia ter sido um sonho. Mas não era. Aqui estava eu, prestes a ter
um encontro significativo com o Colin Farrell. O meu Colin Farrell. O meu Colin
Farrell privado. A minha mente prendia-se ao receio. Ao receio de querer e não
querer. Ao receio de viver o que quis, talvez, viver antes. Ao receio de chegar
ao momento e dizer que era melhor "isto" não acontecer. Mas
principalmente ao receio de que não corresse bem. Conforme foi combinado, ia
telefonar-lhe daí a cerca de uma hora. Qual não foi o meu espanto quando vi uma
chamada não atendida dele. Sorri, mas abateu-se-me a ideia de que ao ligar-lhe
de volta iria ouvir uma desculpa para o cancelamento do encontro. Respirei fundo
e liguei. Surpreendi-me, pois o encontro mantinha-se tal e qual fora planeado,
sem qualquer alteração nem condição. Fiquei contente por não me enganar no
carácter do Colin. Tinha-o em conta. E ele assim se fez valer. Combinámos o
local onde nos iríamos encontrar e a hora, ao mesmo tempo que ocupávamos o
tempo ao telefone com assuntos banais.
Como seria de mim
prever, sofri um atraso a arranjar-me. "Pior que as gajas". Mas o
motivo era válido. Eu não ia sair com um qualquer. Ia sair com o Colin! Não é
que tenha feito mais do que o normal, mas sem dúvida perdi mais tempo a
lavar-me, vestir-me, pentear-me, ver cada pormenor. Para além do tempo sentado
na cama em toalha de banho, a olhar para o chão e a pensar no insólito que
estava a acontecer. A tentar disfarçar com uma postura de "é normal, não
tem nada de mais"... Nem esperava que ele fosse reparar em algo em mim a
nível físico, alguma particularidade, nem me preocuparia com isso fosse com
quem fosse sair. Dei mais atenção à minha cara, pois era essa que eu queria
evidenciar. Porque também não fazia ideia se iria evidenciar mais alguma parte
do corpo. Foi aí que percebi que... não sabia o que ia acontecer. Qualquer
pessoa "saberia" à partida no que ia dar. Mas mantive sempre o pé
atrás sobre isso. O melhor é nunca criar expectativas. Quanto mais natural uma
pessoa se sentir, melhor será a recordação de um momento bem passado. Sem
julgamentos. Sem contradições interiores. Sem vontade de mais nem menos.
Liguei-lhe
novamente quando estava a entrar no carro... uma hora depois do que tínhamos
combinado! Mas, afinal, eu não era o único atrasado para o encontro. Passada
cerca de meia hora, reencontrámo-nos. A minha curiosidade prendeu-se ao facto
de ele ter vindo com um boné na cabeça. Mal sabia ele o quanto eu apreciava tal
pose. Vinha com calças daquelas largas, à "chunga", ténis
espampanantes e coloridos. Levei-o a um restaurante que conhecia e onde se
comia muito bem. No caminho, cada vez mais caía na realidade do momento que
estava a ter. Só o facto de ele estar ali ao meu lado fez valer tudo. De vez em
quando observava-o. Apanhava-o distraído. Continuava a falar, a falar e a
falar. Parecia perdido. Durante a refeição aproveitámos para colocar mais
conversa em dia, actualizando os assuntos familiares, pessoais, profissionais.
No final, ao sair, ainda ficámos no carro a ouvir música e, claro, a falar, a
falar e a falar. Acedemos a uma aplicação para pesquisar hotéis e escolhemos um
que eu, por acaso, já conhecia e que estava com um preço muito acessível. Ele
nem tinha a noção de que é possível passar a noite num hotel a preço mais
barato que numa pensão. E com certeza o conforto e as condições são
indiscutíveis. Surgiu a dúvida se durante a noite não teríamos fome e, por
isso, passámos num hipermercado para comprar algumas porcarias. Trouxemos um
pacote de chá gelado, alguns pacotes de leite com chocolate, doughnuts e outros
biscoitos.
Ao chegarmos ao
hotel, cerca das dez da noite, e após o "check-in", subimos para o
quarto, que ficava no final do corredor. Espaçoso. Cama gigante (seleccionámos
essa opção quando fizémos a reserva...). E o melhor de tudo: tinha varanda.
Assim não teríamos de sair cada vez que quiséssemos fumar. A casa de banho
tinha banheira, espaçosa o suficiente para nos deitarmos lá os dois. Apetecia-me
fazer isso. Apetecia-me ter o corpo dele encostado ao meu, sentir as costas
dele apoiadas no meu peito, posição através da qual poderia observar de cima o
pescoço dele e trincar-lhe as orelhas, sem hipótese de fuga. Mas tal,
infelizmente, não aconteceu. Percebi que criei essa expectativa, e que nem tudo
acontece como "sonhamos". Pensei que, estando já ali os dois, tudo
poderia acontecer. Mas o acontecimento já estava a ter lugar. Largando os
nossos pertences, dirigimo-nos para a varanda. Fumar. Apreciar a fabulosa
vista. Conversar sobre assuntos banais. O habitual. A temperatura do quarto era
bem mais agradável e não tardou muito a nos refugiarmos lá dentro. Despi o
casaco e coloquei-o num pequeno sofá que permanecia num canto, como que um
voyeur que nos estivesse a pagar para ver "alguma acção". O Colin
colocou aqui também o seu casaco. Montei os aperitivos que trouxemos em cima da
comprida mesa que ficava à frente da cama. A televisão permanecia ligada num
canal de informação onde várias figuras discutiam política.
Descalcei-me e
sentei-me na esquina da cama. Ele não parava de um lado para o outro do quarto.
A boa disposição dele e a incansável tarefa de me animar aquecia. O pormenor de
haver um espelho por cima da mesa, virado para a cama, despoletou qualquer
coisa no olhar do Colin. Observei-o a olhar para si próprio, enquanto que
falava. Recostei-me para a cabeceira da cama e quase bati com a cabeça num
quadro que aqui se pendurava. Tinha colocado ali por baixo todas as almofadas
disponíveis. Cruzei as mãos em cima da barriga, assistindo ao início do
espectáculo. Ao falar comigo em tom de brincadeira, ia-me provocando, a quente
e a frio, ora colocando-se numa posição mais atraente e parada para o espelho,
através do qual nos fixávamos no olhar, ora mudando repentinamente de assunto e
começando a dançar ao som do silêncio. Aproximou-se de um dos lados da
cabeceira e atirou-se para a cama, deitando a cabeça quase em cima dos meus
pés, com uma das almofadas. Formámos um ângulo perfeito de noventa graus, sendo
cada um de nós um eixo. Assim ficámos durante algum tempo, em conversa.
Tirei-lhe o boné da cabeça e coloquei na minha. Da mesma forma, de tantos em
tantos minutos trocávamos de posição em cima da cama. Já estava ele encostado à
cabeceira e eu ao fundo. Aproximei-me para tirar outra almofada, mas não uma
disponível. Queria uma que estivesse ocupada. Puxei uma das que lhe seguravam
as costas, aproximando-me da cara dele, onde larguei um pequeno beijo que lhe
interrompia as palavras. Sorriu e respondeu da mesma maneira. Continuávamos a
discutir assuntos banais de forma consciente, mas já nos colocávamos em
posições mais reconfortantes e íntimas. Cada vez mais perto. Muito perto. Não o
suficiente!
Os pequenos beijos
foram sendo cada vez mais constantes. Por vezes, um deles demorava-se um pouco
mais, tentando imitar os da noite anterior. As minhas mãos saltaram de alegria
por finalmente poderem "picar o ponto". Comecei a percorrer as
laterais de todo o corpo. Refugiava o meu nariz no pescoço. Trincava pequenos
pedaços de pele. Quando passava de novo a minha cara à frente da dele,
olhávamo-nos nos olhos. Dobrava-me sobre ele para o beijar, ao que ele
respondia, esticando-se para a frente. Provoquei-o, lançando-me lentamente para
trás e fazendo-o vir buscar o beijo. Passava o lábio superior em cada um dos
dele, fazendo a língua aparecer de vez em quando e deixando um pingo de saliva
que iria novamente buscar. Ele fazia exactamente a mesma coisa. É óptimo quando
beijamos alguém que tirou o mesmo curso! Ali nada era forçado. Nada era sem
tempo. Nada se deixava por tocar. Despi-me da cintura para cima e atirei a
roupa para fora da cama. Puxei-o para mim e tirei-lhe da mesma área a roupa,
com igual destino. A receptividade entre os dois estava ao rubro! Enganei-o, fazendo-o
pensar que nos encostaríamos. Atirei-me lentamente para trás, percorrendo com a
mão direita o corpo dele, dos ombros à cintura, a coxa, a perna, o joelho,
passando por trás nos gémeos e terminando no pé, levantando-o. Deixei cair a
cabeça para o fundo da cama. Agarrei o pé com as duas mãos e fui apertando por
cima e por baixo com a ponta dos dedos. Massagei, ora com jeitinho, ora com
força. Fechei os olhos a imaginar a cara que ele estaria a fazer. Percebia-se
pelos pequenos gemidos que começavam a ecoar naquele quarto sem insonorização.
Por um momento, indaguei se não teríamos "vizinhos" nos quartos ao
lado. Despreocupei-me. Queria eu lá saber disso! Mudei para o outro pé. Entre
os "É tão bom" e os "Sabe tão bem" que ia ouvindo, trinquei
o meu próprio lábio, sorrindo de satisfação. O Colin decidiu massajar-me os pés
também. De facto... é muito bom! Puxei o meu corpo mais para o centro da cama e
coloquei uma das almofadas para me recostar. Olhava para ele, enquanto que ele
me tocava. Pouco durou até ele atirar o seu corpo devagar para cima de mim.
Beijámo-nos com muita técnica e astúcia. Levantei-me para me colocar sobre ele.
E continuávamos. Ainda nos enrolámos algumas vezes, até ele ficar por cima de
mim novamente. Começou a desapertar o meu cinto e desabotoando as calças. Aos
poucos, foi puxando-as para baixo até mas tirar por completo. Enquanto isso, eu
fazia-lhe o mesmo até ficarmos os dois completamente nús e de corpos encostados
um ao outro. Segurei-o pelo fundo das costas, ponto este por onde ia
controlando as várias posições dele, enquanto que rolávamos em cima da cama,
como dois gatos a brincar em câmara lenta.
O tempo passava e
os preliminares persistiam. Apalpei tudo quanto podia. Chegava a tocar com a
ponta de um dedo sítios onde talvez nunca lhe tenham tocado. Senti-me um
pianista a tocar uma balada deprimente. O prazer era audível, pois os gemidos
eram cada vez mais constantes e intensos. Por vezes, agarrava-lhe pelo queixo e
observava a cara dele. Acariciava as curvas desta, percorrendo todo o crânio
até à nuca. Ele foi descendo pelo meu corpo até encontrar a minha pila erecta
que o esperava. Tomou-lhe o sabor e massajou-a com a língua, por vezes subindo
o olhar para verificar se eu estava mesmo a gostar. E é claro que sim!
Estávamos agora os dois de joelhos e frente a frente. As pilas tocavam-se e
recuavam, ao responder a uma contracção de satisfação. Olhei para o espelho.
Sorri e pensei que ele iria gostar do que vinha a seguir. Fi-lo virar-se de
costas para mim e agarrei-o, tornando possível a visualização do nosso próprio
desempenho. Ele mostrou-se contente com a situação. Com o meu peito, empurrei-o
para baixo até nos deitarmos ao comprido, ficando ele com a cabeça pendurada
para fora da cama, no fundo desta. Tentei tocar com cada centímetro da minha
cara nas costas dele. Percorri a coluna dele com a ponta do meu nariz, largando
pequenos beijos. Com os joelhos, afastei-lhe as pernas e acomodei-me no meio.
Cheguei com a boca ao rabo dele e trinquei suavemente cada uma das nádegas. O prazer
era notável, tal eu sentia o rabo a empinar cada vez mais. Agarrei-lhe os
colhões com uma mão por baixo e de seguida a pila, rija que nem uma pedra. Com
a outra mão, apalpava o rabo, começando a deslizar com o polegar para o
centro... da minha atenção. Com a ponta do dedo, rodeava, rodeava, rodeava.
Levei o dedo à boca, salivando-o. Rodeei de novo o buraco, que ficava cada vez
mais húmido e descontraído. Deitei-me de novo em cima dele, e levei o mesmo
dedo à boca dele. Agora a saliva era a dele. Voltei para trás e rodeei outra
vez o buraco. Baixei-me e fui enfiando a ponta da minha língua lentamente lá
dentro e à volta. O gemido e o apertar dos lençóis intensificou-se. Não faltou
muito tempo até eu estar de novo por cima dele, agarrando-o pela cintura, e
preparado para o penetrar. Aos poucos, a minha glande ia tocando e forçando a
entrada. Os gemidos persistiam, sempre num tom baixo e com duração de dois a
três segundos. Ao começar a entrar "em espaço alheio", lentamente e
em movimentos calmos, sentia a concordância dele, que levantava a cabeça e
tentava olhar um pouco para trás, como que a chamar-me para me aproximar. Assim
o fiz, sem parar os movimentos. A pila entrava cada vez mais. A respiração dele
já era ofegante demais para ser feita só pelas vias nasais. A boca tinha de
permanecer aberta devido ao pouco ar que já se fazia sentir. De cara encostada
um ao outro, apreciávamos o tapete do quarto. Nunca tivémos tanto prazer a
olhar para um tapete...
Um pouco cansados
de estar na mesma posição, trocámos. Ele queixou-se que estava com alguma fome.
Puxámos os doughnuts e ele começou a comer um. Abri uma das embalagens e tirei
o doughnut, segurando-o com a ponta dos dedos. Empurrei o Colin para trás e
deixei cair o doughnut em cima do peito. Baixei-me para dar uma trincadela. Fui
segurado pela mão dele, dizendo "Espera...". Olhei para baixo e
disse-lhe prontamente que o que ele estava a pensar fazer não ia resultar, pois
o buraco do doughnut era apertado e frágil e que por isso iria logo partir. Mas
ele, a rir-se e com uma insistência danada, foi introduzindo lentamente a pila
no doughnut. Não sei bem como... mas a verdade é que foi passando, passando,
passando sem se partir, embora se notasse a massa a rasgar um pouco. Ao chegar
a meio, disse-lhe que já chegava e ele recostou-se para trás. Nunca pensei vir
a comer um doughnut desta maneira, mas fui trincando pedaços à volta da pila
dele, até ficar um bocado mais frágil que logicamente acabou por se partir,
tirando o resto com a mão. O instrumento ficou coberto de açúcar, o qual não
demorou muito a ser derretido pela minha língua, suavemente. Deitei-me de
costas. Afastando-me as pernas, posicionou-se por cima, com um olhar maroto e
passando a língua nos lábios. Assumi a personificação da Xenia Onatopp ("Bond
Girl" e personagem do filme "Goldeneye", cuja particularidade
era a de asfixiar homens com as pernas à volta do torax), apertando o corpo
dele e puxando-o para mim. Conseguia sentir a ponta da pila dele a tocar no meu
cú. Suavemente, ele foi-se baixando cada vez mais.
Colocou uma
almofada por baixo do meu rabo e desapareceu! Coloquei também uma por baixo da
cabeça para poder ver o que estava a acontecer. Conseguia ver o cabelo espetado
a subir lentamente e a tender tanto para a esquerda como para a direita. Subitamente,
foram aparecendo a testa e as sobrancelhas. A língua dele fazia exactamente
como eu lhe tinha feito antes. Suscitou-me a curiosidade e esperei ansiosamente
para conseguir olhá-lo. Não deixei nunca de sentir a língua quente a tocar e a
molhar toda aquela zona. E apareceram os olhos. Fitaram-se nos meus, a abrir e
a fechar. Penetrantes. Sedutores. Foda-se! É o Colin Farrell! Se fosse mulher,
teria o Colin no cólon. Eu tinha o Colin nos colhões!! Pouco depois, preparado
para me penetrar, colocou-se em posição e foi entrando lentamente, enquanto que
se dobrava para a frente para me beijar. De vez em quando, eu ia tentando
levantar o corpo para chegar mais perto dele, ao mesmo tempo que lhe empurrava
o peito com uma mão. Senti o prazer intenso ao tocar naquele corpinho com tudo
no sítio. Assim continuámos por alguns minutos até ele parar. A excitação já
era tanta que estava na hora de dar o assunto por terminado. Olhando um para o
outro, questionámo-nos de "onde terminaríamos o serviço". Não poderia
haver melhor escolha: coloquei-me por cima dele em formato sessenta e nove e
masturbámo-nos um ao outro até "explodirmos" de prazer. Adrenalina
pura a percorrer o corpo de cada um.
Depois de um minuto
de descanso em cima da cama, partimos para a banheira, onde tomámos um banho
quente. Ele cantava enquanto que se lavava. Eu ajudava-o na lavagem, passando
as mãos pelo corpo molhado. Encostávamo-nos um ao outro, beijando. Depois de
secos e mal vestidos, fumámos um cigarro na varanda, sempre conversando. Pouco
depois, deitámo-nos. Eram agora cinco e meia da manhã. De lado, agarrei-o,
encostando-me às costas e com o nariz no pescoço dele. Meia hora depois,
trocámos de posição e assim sucessivamente. Até adormecermos.
*****
O sol raiou e a
iluminação entrava no quarto por entre a abertura das cortinas. O despertador
avisou-me que eram horas de aproveitarmos o pequeno-almoço que estava incluído
na estadia. Fomos comer e, de volta ao quarto, fumar um último cigarro naquela
varanda com a vista fantástica. Demos um último beijo antes de pegarmos nas
coisas para ir embora. Parámos no sítio onde ele tinha deixado o carro dele e
bebemos um café. Ainda permanecemos aí um bocado até nos despedirmos. Tomámos
depois a mesma estrada para casa de cada um, caminho esse que se iria separar.
Conduzíamos um atrás do outro, ultrapassando alternadamente. Sorríamos um para
o outro em tom de gozo. À frente estava a saída para ele e a continuação da
estrada para mim. Deixei de o ver.
Até aqui, desde que
acordei, isolei-me de qualquer pensamento. Assumi o facto de dormir com ele
como algo perfeitamente natural ou até habitual. Agora que estava sozinho,
podia pensar à vontade no que tinha acontecido. Comecei a relembrar cada
momento, cada toque, cada olhar. Aos poucos, ia-me rindo sozinho. Cada pormenor
me fazia rir, como se tivesse feito algo que nunca tinha feito antes. Um riso
de vergonha. Um riso de parvoíce. Um riso por causa do doughnut. Um riso por
causa do tapete. Um riso por ser o Colin. Um riso por causa das almofadas. Dou
por mim a rir e ao mesmo tempo a verter lágrimas que me escorriam pela cara.
Não fui capaz de me olhar ao espelho. Não quis perceber o que estava a sentir.
Mas sei que estava longe de me sentir triste; muito pelo contrário.
Ocorreu-me o facto
de o ter desejado uma vez. Sei que o desejei sem saber de que maneira. Sei que
também o desejava da maneira que se proporcionou. Não me recriminei por o ter
desejado. Mas tive algo que desejei. Queria-o para mim. Foi meu. Mas porque não
o foi quando esse desejo foi despoletado? Porquê agora? Por vezes, a satisfação
de um desejo pode servir para percebermos que afinal não era desejo. Afinal
podia não ser o que queríamos. Talvez fosse cobiça. Mas se fosse cobiça, eu não
teria o mesmo interesse. Não me daria a tanto trabalho nem perderia tanto
tempo. Nem teria tanto interesse. Portanto, o meu desejo de há vários anos
atrás foi concretizado. A verdade é que não esperei que fosse desta maneira.
Não desejei assim. Simplesmente desejei. E aqui jaz a moral da história. É
preciso ter cuidado com o que se deseja pois, um dia... acontece.
escrito por: "Tuga"
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Boas festas
(imagem retirada da internet)
Estou out para descanso, volto para o ano.
A todos umas Boas Festas com muita saúde e trancadas das boas.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Entrevista de emprego - Parte 1
(imagem retirada da internet)
Já estava desempregada há alguns meses. As minhas poupanças
estavam a acabar e eu precisava urgentemente de arranjar um emprego. Tinha
acabado de conseguir marcar uma entrevista para um trabalho de secretariado
numa empresa de transportes.
Tinha de me esforçar a sério! Tratei de arranjar um conjunto
bem apropriado para o trabalho: camisa branca, saia subida com cinto largo e um
sapato preto clássico. Cabelo apanhado e uma maquilhagem bem suave. Nada de
exageros!
A sede da empresa ficava mesmo no centro de Lisboa. Odiava a
ideia de ter de apanhar transportes todos os dias, mas não podia estar a ser
exigente agora. Além do mais, nem sabia se iria ser seleccionada.
A entrevista era às 10h, cheguei 20 minutos antes, como é
meu hábito, e de bom-tom. Apesar do meu bom hábito, já lá estavam algumas
candidatas, supostamente deveriam de ter sido entrevistadas às 9h. Boa…estava
tudo à espera. Aparentemente o director dos RH estava preso no trânsito, e
bastante atrasado. Ouvi uma senhora que lá andava a organizar aquilo, informar
que o Dr. Pereira já tinha entrado no edifício e que iria começar as
entrevistas o quanto antes. Fui junto da senhora confirmar a ordem das
entrevistas, concluí que era a última de 5 que ele iria entrevistar de manhã,
portanto, podia ir à casa de banho à vontade aliviar os nervos.
Quando regressei à sala de espera já tinha entrado a
primeira candidata, fiquei aliviada por finalmente ter começado, assim já só
faltavam 3 para chegar a minha vez. Queria despachar logo aquilo.
Passados 15 minutos a porta da sala do Dr. Pereira abriu-se
e iria sair a primeira entrevistada. Deu para ouvir a voz da pessoa que estava
perto da porta…parecia um homem bastante jovem, apesar de ter uma voz grossa. A
luz do sol que vinha de dentro da sala não deixava ver nitidamente o rosto da
pessoa que estava a porta. Percebi que era jovem, moreno e que estava a olhar
para mim, fixamente. Tentei focar melhor a sua silhueta, sem parecer uma velha
pitosga. Aquele rosto parecia-me extremamente familiar…
A segunda candidata entrou na sala. O Dr. Pereira fechou a
porta, lentamente, e eu de olhos postos nele. Quando esta se estava mesmo quase
a fechar, e tapou toda a luz, consegui ver melhor o rosto que me fitava: um
sorriso perfeito, aquela boca carnuda. Não podia ser! O meu coração disparou
como uma flecha e comecei a suar frio. Levantei-me e fui ao balcão, onde estava
a assistente, e perguntei, sem pudores, qual era o primeiro nome do Dr.
Pereira, ao que ela me respondeu: “Filipe”. Sorri educadamente e agradeci.
Voltei a sentar-me no meu lugar anterior e dei por mim a engolir em seco, a
agitar a perna freneticamente e a brincar com os polegares, a desenhar círculos
em volta um do outro. Tinha de pensar num plano para me pirar dali, mas ao
mesmo tempo estava com a corda no pescoço e precisava de ao menos tentar.
Respirei fundo e jurei que ia tentar ficar para a entrevista, ou pelo menos o
tempo que conseguisse aguentar até lá.
A segunda candidata saiu da sala, acompanhada por Filipe e
ele aguardava, junto à porta, que a terceira entrasse. Fitava-me com aqueles
olhos castanhos, aquelas pestanas que lhe davam toda uma profundidade e
mistério no olhar, um sorriso disfarçado no canto daquela boca deliciosa. A
porta voltou a fechar-se e todo o cenário do nosso primeiro encontro se aflorou
na minha cabeça. Toda aquela loucura de dois desconhecidos, aquela fúria com
que ele me possuiu contra a porta do quarto do motel, sem mal me deixar entrar
e sem ao menos me dizer olá. Senti-me a ficar molhada só de pensar naquele
homem com as suas mãos sobre o meu corpo novamente, a percorrer-me com todo
aquele desejo. Senti-me arrepiar quando quase pude sentir a sua boca passear-se
no meu pescoço, nos meus seios.
(...)
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Nas tuas mãos
(imagem retirada da internet)
Miguel e Sofia já não se viam há
cerca de 10 anos. Tinham-se conhecido no tempo da escola, mas os cursos da vida
acabaram por se afastar bastante, durante muito tempo. Numa manhã haviam-se
cruzado num corredor do centro comercial, cumprimentaram-se alegremente. Tinham
algum tempo livre e foram ao café meter a conversa em dia.
Miguel maravilhava-se com os
densos olhos verdes de Sofia enquanto esta lhe contava que o marido se
encontrava a trabalhar fora do país já há alguns anos. Ele sempre a desejara,
mas nunca teve coragem de o dizer, agora ela estava casada…
Trocaram confidências como se os
anos nunca tivessem passado, numa rápida conversa de café voltaram a reavivar
aquela amizade que sempre tiveram desde a juventude.
Miguel tinha de ir trabalhar e
Sofia comprometeu-se a fazer um jantar em sua casa para o receber, ainda nessa
semana. Miguel ficou ansioso por receber notícias, e vieram antes do esperado.
Nessa mesma sexta ela enviou uma mensagem a convidá-lo para o jantar nessa
noite, ele respondeu que levaria o vinho.
Às 20h em ponto ele bateu à porta
de Sofia, ela abriu e ele entrou, sem cerimónias, deu-lhe dois beijos demorados
no rosto e entregou a garrafa. O jantar estava pronto e sentaram-se à mesa a
conversar, sem estranhezas.
Depois de alguns copos de vinho,
Miguel continuava perdido nos olhos verdes de Sofia, até que acabou por
confessar, por entre alguns pedidos de desculpas, que sempre se sentira atraído
por ela, e mais ainda agora que estava ainda mais bonita e elegante. Sofia
baixou a cabeça e corou, acabando por confessar que também sempre sentira um
fraquinho por ele, mas que se sentia muito mal por ainda o sentir. Era uma
mulher casada agora, apesar de o marido
estar longe a maior parte do tempo.
Miguel levantou-se e pegou Sofia
pelas mãos, levando-a para a sala, sentiu-a tremer, sentiu que ela, apesar da
atracção, não se sentia confortável com aquela situação.
Olhou-a no fundo dos seus olhos
verdes, segurou o seu rosto com ambas as mãos, delicadamente, Sofia fechou os olhos
e sentiu os lábios molhados de Miguel a tocarem nos seus, suavemente, sem
pressas. Sofia entregou-se ao momento e passou uma das mãos por entre o cabelo
da nuca de Miguel e correspondeu ao beijo, um pouco mais sofregamente.
Miguel encostou-a à parede, devagar, enquanto continuava a beijá-la e desapertava o seu vestido floral que amarrava atrás do pescoço. O vestido deslizou sobre o busto de Sofia, deixando o peito a descoberto. Miguel não perdeu tempo a contempla-os demasiado, segurou ambos os seios com as mãos e começou a beijá-los. Ele sabia que aquele momento não iria durar muito, nem poderia ir até ao fim, mas tinha de aproveitar enquanto Sofia deixasse.
Miguel encostou-a à parede, devagar, enquanto continuava a beijá-la e desapertava o seu vestido floral que amarrava atrás do pescoço. O vestido deslizou sobre o busto de Sofia, deixando o peito a descoberto. Miguel não perdeu tempo a contempla-os demasiado, segurou ambos os seios com as mãos e começou a beijá-los. Ele sabia que aquele momento não iria durar muito, nem poderia ir até ao fim, mas tinha de aproveitar enquanto Sofia deixasse.
Ele beijava ambos os seios dela,
lambia levemente e sentia os mamilos intumescer dentro da sua boca, enquanto
ela, com os olhos fechados, mordiscava o próprio lábio e continuava agarrada
aos cabelos da nuca dele, apertando suavemente.
(...)
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Porta de Motel
(imagem retirada da internet)
Conheci Filipe numa rede social. Tínhamos amigos em comum,
ele enviou-me um convite e eu aceitei.
Iniciámos a nossa amizade agradavelmente, com conversas
triviais sobre os nossos trabalhos, os nossos hobbies, as coisas que
gostávamos.
Com o passar dos meses, e de trocas diárias de mensagens,
ele começou a abrir-se um pouco mais comigo, e eu com ele. Partilhámos detalhes
da nossa vida mais pessoal e amorosa. Era um homem doce, mas profundamente
infeliz. A sua mulher estava em depressão há alguns anos, o carinho era pouco e
o sexo cada vez mais escasso. Lutava diariamente contra o fogo que o consumia e
contra a tentação de lhe ser infiel, pois amava-a muito e tinha esperança que
um dia ela voltasse a ser o que era. Satisfazia-se sozinho todas as noites, às
vezes mais que uma vez por dia, mas isso não o ia aguentar por muito mais
tempo. Optou por começar a dedicar-se intensamente ao desporto, para extravasar
a energia acumulada, mas surtia pouco resultado.
As nossas conversas iam ficando cada vez mais íntimas e
atrevidas, ele deixava-me louca com as suas conversas envolventes e o fogo que
queimava dentro dele, passava o ecrã dos nossos computadores. Chegávamos a
passar horas em conversas lascivas, a descrever cenários imaginários, onde nos
poderíamos cruzar, a imaginar o que faríamos quando estivéssemos juntos.
Trocávamos clips porno com aqueles cenários em que nos tínhamos imaginado
mutuamente.
Inevitavelmente, acabámos por trocar algumas fotos íntimas.
Comecei, com um pouco de vergonha, por lhe enviar uma foto em soutien, mas ele
queria muito mais. Acabou por me convencer a enviar uma dos meus seios nus.
Disse que se tinha masturbado a olhar para ela.
Eu já tinha visto uma foto de Filipe. Era um homem bem
moreno, lindo, com os seus 29 ou 30 anos, uns lábios tão carnudos que só de
olhar dava para sentir uma pulsada lá em baixo. Depois de alguns meses dele
estar no ginásio, caí na asneira de pedir outra foto, em tronco nu, para ver a
evolução. Ele foi um sacana…enviou uma foto em tronco nu… e algo mais… bem
depiladinho… e duro! O desgraçado ainda teve a coragem de dizer que estava
assim porque estava a pensar em mim e tinha estado a ver as minhas fotos…fiquei
doida!
Antes que começasse a pensar muito, e me arrependesse,
mandei uma mensagem: “Amanhã às 20h, no Motel do Sul. Diz à tua mulher que vais
jogar à bola…desenrasca-te!” ao que ele apenas respondeu: “OK!”
Fiquei super nervosa, mal dormi nessa noite a pensar no que
iria fazer. Demorei horas a escolher a roupa que iria vestir e, sobretudo, a
lingerie. Optei por um conjunto branco de renda, uma camisa branca e uma saia
preta. Bem clássico, não poderia falhar! Já perto da hora marcada, tomei o meu
duche, vesti a roupa, meti-me no carro e rumei ao local marcado. Pensei em chegar
um pouco antes de Filipe, para me poder refrescar depois da viagem, mas ele
parecia mais ansioso do que eu e acabou por chegar primeiro. Mandou-me uma sms
com o número do quarto. Entrei, estacionei o carro perto da porta e bati. Toda
eu tremia. Tentei afastar da cabeça todos os pensamentos que eu tinha, de
insegurança sobre as expectativas que Filipe teria sobre mim. Pensei também no
que raio me teria passado pela cabeça para ter marcado aquele encontro, sem ao
menos ir beber um café primeiro. Mas era tarde para pensar nisso. Já estava
ali, à porta do quarto, apenas à espera que ela se abrisse e que do outro lado
aparecesse aquele que era, tecnicamente, um estranho.
(...)
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Colega de Apartamento - Parte 2
(imagem retirada da internet)
Os dias foram-se passando e a nossa vida retomou o ritmo
normal. De vez em quando Pedro despedia-se de mim com um beijo na boca mas
fazia tempo que não dávamos uma. Afinal um homem daqueles teria as gatinhas que
quisesse a arranharem-se para ficar com ele, sexo não faltava para ele, com
certeza.
Sábado à noite era sagrado para ele ir para a noitada e
comer umas miúdas boas. Ele arranjou-se todo, perguntou se eu queria ir, e eu,
claro, disse que não e desejei que se divertisse. Saiu e eu fiquei ali no sofá a
pensar nele, a lembrar-me da queca brutal que tínhamos dado há duas semanas
atrás, fechei os olhos e fiquei ali a pensar em todos os detalhes, todas as
sensações que havia sentido e não demorou muito para sentir um calor a me
invadir e umas palpitações lá em baixo.
Fui para a minha cama, tirei minha roupa e fechei novamente
os olhos a pensar nele. Sentia seu perfume perto de mim, passei as mãos pelo
meu corpo pensando serem as suas. Belisquei meus mamilos durinhos e pontudos,
levei-os à boca e lambi. Não dava para chupar mas conseguia lambê-los. Minhas
mãos percorriam meu corpo, minha barriga, minhas coxas grossas e finalmente
minha vulva. Já estava completamente molhada e quente, sentia meu coração bater
nos meus grandes lábios e meu ritmo cardíaco acelerava.
Comecei a passar a ponta dos meus dedos sobre meus lábios,
acariciei-os e afastei-os para tocar meu clítoris. Estava grande e duro,
sensível ao toque. Molhei meus dedos em meus sucos e comecei uma massagem em
círculos, enquanto que, com a outra mão, apertava meus mamilos. Uma onda de
calor começou a invadir-me, meu coração batia mais forte, e eu só com meu
pensamento naquele corpo quente em cima do meu, a socar o seu pau maravilhoso
dentro de mim. Estava tão concentrada que nem me apercebi de nada, apenas abri
os olhos e vi Pedro na porta do meu quarto, a observar-me. Quase morri de
vergonha. Puxei o lençol e cobri-me, como se ele nunca me tivesse visto nua.
Ele sorriu e entrou no quarto.
- Pensei que tinhas saído. – disse eu, tremulamente.
- Pois, mas desisti de ir e voltei. Amiga se eu soubesse que
estavas assim nessa seca, nem tinha saído.
- É… acho que vou ter de comprar um brinquedo – e ri
- Enquanto tu quiseres que eu exista na tua vida, não terás
de comprar um brinquedo nunca, eu serei o teu brinquedo.
E imaginem se eu não queria um brinquedo daqueles…
Pedro tirou o lençol de cima de mim, passou suavemente a mão
sobre o meu corpo e pediu-me:
- Agora continua o que estavas a fazer, quero ver o que fazes
quando estás sozinha.
(...)
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Falha de comunicação
(imagem retirada da internet)
- Eu chego por volta das oito e meia da noite. – responde
Ana à sua tia, pelo telemóvel.
- Então vê lá… não te atrases, senão perdes o comboio!
- Não se preocupe, tia. Eu chego a horas.
Sem dúvida que Ana chegaria a tempo,
pois já se encontrava na estação. E pouco passava das treze horas. Ao desligar
a chamada, pensa que já está na altura de comer qualquer coisa e largar o
telemóvel de vez. De tempos a tempos, continuam a cair mensagens de texto
insultuosas, às quais ela não quer responder. Já chega! Não há volta a dar!
Decide levantar-se do banco frio
da sala de espera, pegando na mala de viagem pela mão e na mala de mão pelo
ombro e seguindo caminho até ao centro comercial. Não é que a mala esteja
pesada, até porque tem rodas e pode muito bem ir a rastejar no chão, deixando
para trás memórias que devem estar enterradas. Não é que o lanço de escadas
conte muitos degraus para o piso inferior. Não é que Ana esteja fisicamente
cansada. Acontece que o facto de ter um elevador a dois passos dá-lhe a vontade
de aproveitar para se isolar por uns segundos do resto da população. O que
melhor do que um cubículo envidraçado e insonorizado para criar o perfeito
isolamento? Ana consegue perceber que a caixa do elevador está neste momento
parada no seu piso e aumenta a velocidade para conseguir apertar o botão de
chamada, antes que se fosse embora. De óculos escuros e com os cabelos lisos a
tapar-lhe parte da visão, nem repara que está em rota de colisão com outro
passageiro. Mas a única coisa que vê é o botão. Está a meio metro de distância
quando, de repente, embate com o ombro esquerdo naquilo que parecia uma parede
de betão, construída em milésimos de segundo. Ao aperceber-se, repara que à sua
frente jaz um braço de homem. Levanta os óculos e segura-os na cabeça. Olhando
rapidamente para a mão, procura o dedo anelar. Não tem aliança! Não é
comprometido! Mas que perseguição! Levanta a cabeça num ápice para deslumbrar o
possível otário que a magoaria mais uma vez na sua longa história de dor emocional.
Depara-se com uma figura tipicamente portuguesa, de olhos verdes e cabelo
escuro, latino, alto e com um físico para o magro. Mas a sua experiência
dizia-lhe que por baixo daquela roupa a história era outra… Porra, mas porquê?
- Peço desculpa, não a vi… -
ouve-se.
Sem ligar muito às palavras, o
tom ecoa pelos ouvidos de Ana à velocidade da luz, de tal forma que sente um
arrepio nas têmporas. O olhar cola-se à cara dele e deslumbra um meio sorriso
junto com um levantar de sobrancelhas que parecia dizer “Vê lá se andas mais
devagar!”. Hipnotizante. Não deveria ter mais do que vinte e cinco anos de
idade. Era um puto! A realidade leva a melhor e Ana responde, desviando a cara:
- Não faz mal.
O dedo dele avança para o botão.
Ana acompanha a ponta deste, desejando que lhe tocasse a ela. Não! Por amor de
Deus, é um puto! A porta abre-se. Por sorte, o elevador não escapou, tal era a
sua utilização… Surpreendentemente, Ana não é convidada a entrar primeiro. Não.
É passada à frente por aquele pedaço de homem, de ombros largos, com um rabo
empinado, pequeno e arredondado, estúpido de merda, mal educado! Pensou ela. Entra
de seguida, esperando que desta vez ele se digne a perguntar “Para que andar?”
e que ainda faça o favor de carregar no botão certo. Mas mais vale esquecer. A
mais velha é ela, portanto ela é que manda. Atira o indicador para o zero e
investe com um olhar prestes a rasgar um sorriso amarelo que diria “Não é
preciso. Sei muito bem para onde vou. Sei muito bem quem sou e não preciso que
faças nada por mim, porque homens como tu só sabem fazer o mesmo. Por isso,
desaparece-me da frente e…” O pensamento de Ana é interrompido pelo olhar verde
e exuberante. A lâmpada do elevador está fundida. Não faz mal. Parece que o Sol
mudou de morada. Sem retirar o dedo do botão do zero, fixa-se naquele olhar
penetrante. Desta vez, o sorriso é maior; tão maior que já se vê uma parte do
contorno das gengivas nos dentes. Ainda mais apaixonante para Ana, que já não
via um sorriso assim há algum tempo. O rapaz, sem tirar o olhar de cima dela,
segue com o dedo para o zero. Os dois dedos encontram-se no botão, roçando pele
com pele. Ana sente um arrepio que lhe percorre desde o braço, passando pela
espinha e desembocando entre as pernas, provocando uma ligeira contracção. A
porta fecha-se. A caixa dá um solavanco, indicando que vai iniciar viagem. É aí
que ambos acordam. Os dedos despedem-se, tristemente. E relatam esse sentimento
aos olhos de cada um dos protagonistas, que por sua vez baixam o olhar para o
piso sujo da caixa. O tempo passa devagar, mais do que o desejado para uma
mulher ainda casada encafuada dentro de um cubículo com um universitário
insolente. Provocador. Mania que é bom! E deve ter razão…
Acaba-se a longa viagem no
momento em que a porta abre, dando entrada ao ar fresco, frio, gelado da rua,
para contrastar com o bafo que se gerou no interior. Parece que o toque dedal
transmitiu boa educação ao jovem, porque desta vez esperou que a “senhora”
avançasse primeiro. Ana sai, puxando a mala. Sem notar, tal era a pressa para
desaparecer daquele momento, passa com uma das rodas da mala por cima do pé do
jovem. Este retrai-se, lançando o corpo para trás e recolhendo rapidamente o
pé. Perplexo com a falta de reacção da “rapariga”, tomando-a por uma inocente
desastrada, diz:
- Então boa tarde! – esperando
um olhar de volta.
Ana olha muito depressa e sorri,
mais ou menos percebendo o que acabara de fazer. Conforme roda a cabeça, volta
a colocar os óculos escuros no nariz e segue caminho em direcção ao centro
comercial. O rapaz sorri sozinho e segue caminho também. Poucos segundos passam
até ouvir, de longe, ecoando na gare:
- Peço desculpa, não o vi!
O rapaz abranda o passo, mas a
mente ordena-lhe que avance. Ainda olha para o lado, mas já era tarde. Já só
via os cabelos lisos a esvoaçar com a pressa.
***
A montra da loja de perfumes é
apelativa, mas o cheiro nauseabundo que se sente naquele corredor faz com que
Ana desista de adquirir uma nova fragrância. Queria que tudo fosse diferente a
partir daquele dia. O enjoo com o cheiro é cada vez maior e aumenta porque
ainda está a digerir a comida de plástico que comera há algum tempo. Pode ser
que um café ajude. Arrastando a mala pelo corredor do centro comercial, procura
um elevador, pois não quer passar pela vergonha de passear com uma mala de
viagem nas escadas rolantes. Para além disso, o espaço está a ficar cada vez
mais cheio de pessoas. Tantas pessoas. Demasiadas para o gosto de Ana.
Refugia-se no corredor de acesso ao elevador e espera ao lado de uma senhora mais
velha, na casa dos sessenta ou setenta. A porta abre-se e a senhora entra. Ana
segue-lhe o passo e aguarda que o elevador arranque depois de marcar o dois, de
costas para a porta, olhando para as janelas redondas da caixa, que mostravam
uma parede colorida com peixes e afins marítimos. Mais afogada do que isto é
impossível! Entra mais um passageiro, pelo que de seguida ouve a senhora a
dizer:
- É para o um… se faz favor. –
fechando-se a porta. – Tão simpático, sim senhor. Feliz seja a senhora que o
tiver ao lado!
Ana ri-se para dentro, revirando
os olhos. Só lhe faltava agora presenciar um engate geriátrico em pleno
elevador! Só por causa disso, começou a enjoar de novo com o cheiro do perfume.
Já nem sabia se era o dela, o da velhota ou o do velhote. Mas pelo menos um
deles cheirava bem. Passaram alguns segundos e a caixa parou. A senhora idosa
sai, mas não sem deixar para trás:
- Bem haja, meu jovem. Bem haja!
Muito obrigado!
As palavras da velhota deixaram
Ana a sentir-se enganada. Jovem? Está bem, então. Só por curiosidade, vamos lá
ver isso! Ao rodar em tom de inocência, depara-se com uns olhos verdes… O Sol
mudou novamente de morada, desta vez para o fundo do mar! Raios partam isto! O
puto outra vez! E a porta fecha-se. Não dá para fugir. Ele sorri, como se a
conhecesse de longa data e prontamente dirige-se-lhe:
- Olha quem é ela!... Estava
mesmo à sua procura! Sabe, vim agora do hospital… - e silenciou.
- Eu peço imensa desculpa… -
responde Ana, sorrindo e balbuciando. – Foi mesmo sem querer… Mas não o vejo
com ligaduras…
A tentativa de mostrar alguma
piada começou a parecer que teria consequências. Não é coisa que se faça em
ambientes fechados.
- Naaa… estou a brincar. –
respondeu ele, rindo. – Não foi nada de grave. Acho que sobrevivo.
E pela primeira vez, Ana sente
um pesado remorso e, sem pensar, diz:
- Eu sei, mas sinto-me mal. Se
quiser ofereço-lhe um café. Ia agora beber um…
- Pode ser. – diz ele, muito
rápido. – Calhava bem, agora.
Ana sorri, pensando que ele iria
dizer que não. Queria tudo menos companhia, agora. Mas… porque não? Pelo menos,
passava o tempo. Sem mais conversas, chegam ao último piso e dirigem-se, lado a
lado, a um dos quiosques de café. Ao contrário do que pensava, Ana vê-se
obrigada a sentar numa mesa, após convite do rapaz. Era melhor ficarem em pé no
quiosque. Sempre dava um ar mais impessoal. Os cafés são sorvidos lentamente,
num silêncio quase perturbador. Ele decide cortar o gelo:
- Já reparei que vai de viagem.
– apontando para a mala.
- Podia estar a regressar de
viagem…
- Não me parece… para estar aqui
a passear… parece que está mais à espera de embarcar.
- Tens estado a seguir-me?
- Já nos tratamos por “tu”?
Ana engole em seco.
- Ah… pois… desculpa… Aliás!...
Desculpe!
- Ahahah! Não faz mal. Prefiro
assim. Também não sou assim tão novo… E você não é assim tão velha… Por isso,
prefiro o “tu”. Pode ser?
- E quem lhe disse que eu sou
nova? – ignorando a pergunta.
- Qualquer um o pode dizer.
Lisonjeada e a corar, Ana
retorque:
- Saíu-me sem querer… É por
teres um aspecto muito novo.
- Está decidido! É “tu”!
- Muito bem. Que seja. –
mostrando-se superior. – Então e quantos anos é que TU tens?
- Quantos anos é que me dás?
- Pronto, lá vem a conversa da
treta…
- Calma, só estou a colocar uma
questão pertinente, uma vez que achas que eu sou assim tão novo.
- Hhmmm… eu diria uns vinte e
três… - pensando nos vinte e cinco e terminando com um toque suave. - … mais
coisa, menos coisa.
O rapaz aguardou uns segundos.
- Aceito. Mas falhaste.
- Então?...
- Tenho vinte e oito.
- A sério?
- Sim, a sério.
Ana decide compensá-lo, não
tirando o olhar.
- Eu tenho trinta e três.
- Não ia perguntar…
- Mas ficas a saber.
À medida que o ambiente se vai
tornando quente, o olhar de Ana começa a percorrer a multidão, como se
procurasse um igloo para se esconder. Ele poderia percorrer o olhar na multidão
também, mas prefere fazê-lo em Ana. Subtilmente, vai reparando no decote que
insiste em não aparecer por completo sob o casaco comprido que ela veste. Ana
retira as mãos de cima da mesa para as colocar sobre as pernas. Sentia-se
invadida. Mas o que é que eu estou aqui a fazer com um puto? Quer dizer, parece
um puto, mas afinal não é. Pois, afinal não é crime. Ele decide confortá-la:
- Sou o João, já agora…
- E o que é que o “João Já
Agora” anda aqui a fazer? – retorquiu ela, com um sorriso.
- Ahahah… que piada… - rindo. –
Bem, também vou de viagem… “já agora”!
- Muito bem…E para onde?
- Faro. Algarve. E tu?
- Alentejo.
João recosta-se na cadeira,
comprometido. Indeciso se deveria continuar com o mesmo assunto, prosseguiu
conversa:
- E a que horas é o comboio?
- Às seis… perto das sete.
- Mas és de lá? De que cidade?
- Sim, nasci lá. Mas vivo aqui
em Lisboa. – respondeu Ana, evitando olhar de frente.
- Ok… E vais de férias ou de
fim-de-semana?
Ana aguarda uns segundos e
responde:
- Fim-de-semana. E tu?
- Eu vim cá em trabalho.
- Então moras lá, certo?
- Lá onde?...
- Em Faro! Não disseste que ias
para Faro?
- Ah, sim! Sim, exacto. Vim cá
em trabalho, como disse… e agora vou voltar.
- Então quer dizer que trabalhas
lá…
- Sim… é isso… Ahahah… que
confusão.
- Não acho confuso, por acaso. E
fazes o quê?
João hesita. Junta as mãos sobre
a mesa, aproximando-as da chávena de Ana. E pergunta:
- E tu fazes o quê?
Ana ri, lembrando-se de que
talvez estivesse, de facto, a falar com um adolescente. Pensou imediatamente
que a conversa não teria grande rumo e procurou desligar-se da situação para
seguir o seu caminho.
- Não vale a pena irmos por aí…
- Disse alguma coisa de mal? –
perguntou ele, indignado.
- Sabes… isto não faz muito o
meu género. – confessa Ana, coçando a cabeça, dando um ar mais imaturo. – Não é
de mim falar com estranhos assim desta maneira.
- Há maneira melhor?
- Não sei…
- Do que queres falar, então?
Perplexa com a insistência, mas
ao mesmo tempo curiosa, prossegue:
- Não sei o que há para falar…
Se tens essa vontade, sugere tema.
- És bonita.
- Eu vou ser o tema de conversa?
– ignorando o que acabara de ouvir.
- Tu, não. Nós.
- E o que somos nós?
- Estranhos. Um rapaz solteiro…
uma rapariga solteira…
- E quem te disse que sou
solteira?
- Pelo menos, pareces. Não tens
aliança.
Neste momento, Ana lembra-se da
noite anterior. A noite em que retirou a sua aliança do dedo. Para nunca mais
voltar a usar. Dez anos de casamento ao ar! Tudo por uma parvoíce! Tem agora a
vontade inexplicável de contar tudo a este estranho, vindo do nada. Mas João
“salva-a”, continuando:
- … E não estarias aqui agora
comigo, se fosses casada.
Alinhando na história, Ana segue
o rumo:
- Sim, pois, é verdade. Não sou
casada.
- Então podemos ser abertos e
falar do que quisermos.
- Talvez. Depende do assunto.
- Eu sugeri falarmos de nós.
- Então, o que tens a dizer?
- Tenho a dizer que és uma
pessoa que me atrai.
Ana congela. E João continua:
- E desde o momento em que
choquei contigo que tenho uma vontade louca de te beijar…
- Tens a noção do que estás a dizer?
- Tenho. E tu, o que tens a
dizer sobre isso?
- Eu… - balbuciou, sentindo-se
confrontada. - … eu não sei o que responder a isso…
- Tens a mesma vontade?
Olhando nos olhos de João,
surpresa por tão grande frontalidade, Ana quase que fica sem palavras. Mas
resiste e tenta alinhar na conversa.
- Talvez tenha essa vontade… não
teria nada a perder.
- Eu também não teria nada a
perder. Seríamos ambos a ganhar. – insiste João, com um olhar sedutor e com um
sorriso maroto. – Resta saber se queres…
- Este não é o sítio mais
apropriado… - defende-se Ana.
- Então qual é?
Chega o momento de Ana fazer uma
muito breve avaliação da sua vida. Sim? Não? Que se lixe! Porque não? Nunca
mais o vou ver, de qualquer maneira. E faço o que quero.
- Vamos sair daqui? –
levantando-se da cadeira e pegando de novo na mala de viagem, que agora já
estava a começar a estragar a situação.
João segue-a de lado.Olha-a,
vislumbrando como quem olha para um troféu de outros tempos. Ana está
determinada a deixar-se levar pela situação, mesmo não sabendo bem o que fazer
sobre isso.
***
Estão já demasiadas pessoas a
circular no centro comercial. Este facto começa a tornar-se demasiado incómodo
para ambos. Ana sente que João agora está mais tímido. Aquela conversa de
engate à macho revelou-se só conversa, mesmo. No fim de contas, era um puto que
ela tinha à frente. Com a testosterona em alta. Pois, então porque não
aproveitar isso? Dar uns beijos ou umas apalpadelas ao rapaz fazê-la-ia sentir-se
renovada, como se estivesse a saldar uma dívida. Uma dívida com o Diabo. Seria
pecado? Sentiria remorso depois? Ele não a conhece, ela não o conhece. E já que
agora é uma mulher livre, pelo menos na teoria, não há nada a perder.
Seguem pelos corredores do
centro. Incomodado com o silêncio entre os dois, João pergunta:
- É suposto irmos onde?
- Boa pergunta… Ainda estou a
pensar no que fazer…
O rapaz tenta pegar na única mão
livre de Ana. Esta aceita, mas por poucos segundos. Sorri, para compensar. João
interrompe o passeio, coloca-se à frente de Ana e insiste:
- Vamos tornar isto mais
interessante. Pode ser?
- O que tens em mente?
- Queres ir ver as modas? –
apontando para uma boutique próxima.
- Pode ser. – responde Ana,
sorrindo.
Ana achou que João estava
lentamente a esquecer o assunto e a querer dá-lo como uma simples conversa
pecaminosa entre dois estranhos. A verdade é que a tensão aumentava. Na loja,
ela começa por apreciar algumas peças. Deslumbrando uma saia, olha para João,
como se perguntasse directamente a opinião dele, levantando as sobrancelhas.
Como resposta, ele olha para uma área contígua, onde era exposta a lingerie da
colecção. Ao aperceber-se, Ana ri. João sugere que ela experimente uma saia,
apontando para uma área oposta.
- Já estou a ficar farta de
andar com a mala para todo o lado… Segura aqui. – Passando a pega da mala para
João e pegando na saia.
Em modo precipitado, dirige-se
aos provadores. Achou que estaria a provocá-lo. Quem sabe se ele não daria uma investida
ali mesmo? Não sabia, mas era um bom teste. Oh! Como ela o desejava! Ao entrar
no provador, despe-se à pressa, tirando as calças que trazia vestidas.
Rapidamente, veste a saia, magicando a postura que envergaria ao sair do
provador para mostrar ao seu “amado”. Começa a treinar poses sensuais em frente
ao espelho. Dobra-se ligeiramente para alisar a saia com as mãos. Ao levantar a
cabeça, vê pelo reflexo a cabeça de João a espreitar pela cortina. Apanhada de
surpresa, mantém uma cara séria. Ouve-se a pouca distância:
- O senhor precisa de ajuda? –
pergunta uma funcionária da loja, indagando o aparente“voyeur”.
Virando-se para trás, este
responde:
- Estou com a minha mulher.
Obrigado.
A funcionária sorri, acenando
com a cabeça, e volta para trás. Ana, espantada com a resposta, e ao mesmo
tempo excitada, puxa João pelo casaco para dentro do provador e fecha de novo a
cortina. Do lado de fora, apenas se vê uma mão a transportar rapidamente a mala
de viagem para dentro do provador. Por poucos segundos, olham-se nos olhos.
João estende os lábios para os de Ana. Deixando-se envolver, esta agarra-o pela
cintura. Agora és meu. Faz o que tens a fazer e vai-te embora! As bocas
envolvem-se, cada vez mais molhadas. Espera!... Não te vás ainda embora!
Continua o que estás a fazer! João encosta as mãos ao separador dos provadores.
Ana passa as mãos para o rabo dele, abraçando a cintura, agarrando-o como quem
agarra as barras de protecção de uma montanha-russa. O rabo é mesmo empinado!
Enquanto que o beija, afasta-o ligeiramente com as mãos, agora à frente,
despindo acima das calças o suficiente para conseguir tocar-lhe na barriga.
Enfia o polegar no umbigo que se apresenta nú à sua frente e começa a percorrer
o tronco, fazendo a mão sair na gola e conseguindo tocar no pescoço. Com a
outra mão, agarra o cabide de parede por cima da sua cabeça. Ele aproveita para
lhe beijar o pescoço, enquanto que ela se contorce de prazer. A mão passa a
descer pelo tronco até à cintura, fazendo uma tentativa de entrar por dentro das
calças. O que ela procurava, rapidamente encontra, pois já se coloca “fora do
seu lugar”. Decide ir mais fundo e colocar a mão inteira dentro das calças,
chegando a conseguir tocar na virilha de João com a ponta dos dedos. Tem a
certeza da excitação do parceiro quando sente o pulso com uma certa… humidade.
João agarra-a pela perna, levantando-a e apalpando todo o contorno dos glúteos
de Ana.
Subitamente, ele pára e olha nos
olhos dela. Sorri. Ela mantém a cara séria. Porque é que paraste? Quem é que te
mandou parar?
- Posso perguntar-te uma coisa?
- O que foi? – retorque Ana,
sentindo-se incomodada com a interrupção.
- Como é que te chamas?
Em vez de responder, Ana puxa-o
pela cintura das calças, com metade da mão do lado de dentro e beija-lhe a cara
e o pescoço, impedindo-o de voltar a falar. Enquanto que desempenhava o seu
papel carnal, Ana começa a indagar sobre a parte emocional. Não querendo ferir
a susceptibilidade de João, responde, quase murmurando:
- Joana…
A reacção do rapaz não passa
despercebida, pois agarra-a com mais intensidade, voltando a cobrir-lhe o
pescoço com beijos, mesmo com os cabelos que já se metiam no meio e que perdiam
cada vez mais a compostura. Diz ele, então, pausadamente:
- És… mesmo… boa… Joana…
É neste momento que se ouve um
toque de telemóvel. Dentro de Ana acontece uma falha de energia. Em poucos
segundos, a excitação vai-se. Evapora-se. Já não são faíscas e choques
orgásmicoso que ela sente. Agora é só um estranho a tocá-la. Ele pensa que eu
sou outra pessoa. Onde estou? O que estou a fazer? Será do telemóvel ou do que
ele disse? João sente a lenta paragem e decide acalmar os ânimos. Não retirando
o olhar de cima dela, beija-a como se fosse o primeiro beijo, como os de
cinema. Um beijo apaixonado. Ela não reage. Mas sorri, como forma de
agradecimento, e trinca o lábio inferior, mostrando satisfação. João afasta-se
lentamente enquanto que arranja a roupa meio despida. De seguida sai do
provador e aguarda do lado de fora, puxando consigo a mala de viagem de Ana.
***
Já não falta muito tempo para o
comboio. Quase uma hora. Enquanto que passeiam na gare fria e ventosa, Ana
tenta esconder-se dos olhares das outras pessoas. Não quer ser vista com ele.
Mas como é um sítio tão populoso, talvez passem despercebidos. Mesmo assim, o
incómodo está presente e decidem esperar pelo comboio num local mais abrigado.
Refugiam-se para o fundo do corredor inferior, onde se sentam.
- A que horas é o teu comboio? –
pergunta Ana.
- Daqui a pouco. – responde
João, com alguma tristeza.
- Gostei de estar contigo. –
agradece ela, sorrindo.
- Eu estou a adorar estar
contigo.
O silêncio predomina e torna
cada vez mais difícil reatar a conversa. Mas João, insistente e demonstrando
interesse, pergunta:
- Queres ficar com o meu número?
- Para quê?
- Não sei… Talvez nos possamos
encontrar um dia destes.
- E porque é que tu irias querer
isso?
- Penso que fui bem claro no
provador…
- Sem dúvida… - responde Ana, em
tom provocador e a rir.
- Tu também não foste nada má…
Ana abre a boca em tom de
estupefacção ao mesmo tempo que sorri em tom jocoso. Bate com a palma da mão no
peito dele, empurrando-o para trás. Não era esse o desejo dela, muito pelo
contrário! O que ela queria era puxá-lo novamente e que ele a possuísse ali
mesmo. Salta para cima de mim, bonzão! Mostra o que vales! João agarra-a pelo
braço e aproxima-se, rindo, para lhe beijar a boca. Ana muda a atitude,
retraindo-se e dizendo:
- Aqui não…
- Oh… vá lá… - João com cara
triste.
- Não… já chega…
- Mas eu quero…!
- Sim, mas eu não quero. Pára
com isso.
- Vá lá! – insiste João. – Quero
despedir-me…
- Já disse… aqui não…
João levanta-se e puxa Ana pelo
braço com uma mão e pela mala de viagem com a outra. Ela insiste em dizer
“não”, mas deixa-se levar, rindo pelo caminho. Entram por uma porta de acesso a
um parque de estacionamento. Numa zona mais escondida, canto escuro, ao lado de
uma viatura, encostam-se à parede e repetem algo parecido com o que fizeram
antes no provador da loja. Mas desta vez, João está encostado à parede. No
seguimento dos beijos e apalpadelas, Ana começa a desapertar o cinto de João,
ao mesmo tempo que dá uma panorâmica no parque de estacionamento, garantindo
que ninguém estava por perto. Já lhe desapertou o botão das calças. A braguilha
também é de botões. Desapertar um a um? Nem pensar! “Zás”! As mãos de Ana já
percorrem toda a zona íntima de João, que por sua vez encosta uma mão à parede
e outra ao carro estacionado, enquanto que ela se baixa, colocando-se quase de
joelhos de frente para ele. João sente o calor da boca de Ana no seu pénis e
fecha os olhos, com uma expressão de contentamento. A respiração torna-se mais
ofegante, soltando alguns gemidos de prazer em tom baixo, para não chamar as
atenções. Nunca pensou em estar num sítio daqueles a fazer aquele tipo de
coisas. Ana delicia-se com o momento, agarrando-o com uma mão e segurando-se
com a outra na perna de João. E o telemóvel volta a interromper…
- Merda para isto! – resmunga
Ana, abrindo a mala de mão e, olhando para o visor do telefone, repara que
recebeu mais uma mensagem de texto.
Desta vez, desliga o som do
mesmo. Pensando em qual seria o insulto que iria ler, decide não abrir a
mensagem. Entretanto, a vontade que tinha esmoreceu. A vontade de continuar a
“comer” aquele gajo! Levanta-se. Olha para ele em tom de perdão. João entende
e, sem palavras pelo meio, dá-lhe um beijo terno, vestindo-se de seguida.
Aproveitando para não deixar o ambiente ainda mais constrangedor e percebendo
que se tinha distraído, pergunta:
- Reparaste que horas são?
- Hã… Acho que são seis e meia…
Temos que…
- Foda-se! – interrompe João. – Perdi
o comboio!
- O teu comboio era agora?!...
Porque é que não disseste nada?
- Desculpa… Estava tão fixado em
ti que nem dei por isso…
- Tem calma. Não consegues
apanhar outro?
- Não. Tinha reservado para
este. É sexta-feira… Duvido que consiga apanhar outro. Mas não faz mal. Vou de
carro.
- De carro?
- Sim… Não há problema. Dinheiro
não é problema. Alugo um carro e pronto.
- Ok… Tu é que sabes…
Ana sentia-se culpada pela
situação, embora se tentasse mostrar indiferente. Respirou fundo e contornou o
carro para sair do canto escuro. João puxa-a de volta, agarrando-a pela
cintura, com o intuito de a abraçar. Sem dizer nada, Ana tenta soltar-se.
- Joana… - chama ele por ela.
Ao ouvir aquele nome falso, Ana
enche-se de fúria e solta-se com força dos braços de João. Sem se lembrar que a
sua mala de viagem estava no meio do caminho, entre o carro e a parede, e dada
a pouca visibilidade que tinham naquele canto, tropeça sobre a mala,
estatelando-se no chão, encostada à viatura. João acorre a levantá-la.
- Estás bem? – pergunta.
Por acaso, nem se magoou. O pior
mesmo era a mancha de óleo que jazia no chão, provavelmente do carro que ali
estava. Pior ainda… as calças completamente mascarradas! Recorre aos lenços que
tira da bolsa para limpar as mãos. Olhando para a sua triste figura, Ana
depressa tira da mala um saco… com a saia que havia comprado na loja. Não tinha
tempo para escolher outra peça de roupa. Era o que estava à mão! E tinha de
correr para o comboio! Sentindo-se inútil para ajudá-la, João passa para uma
área mais visível, vigiando a zona envolvente. Vira-se para trás e avisa:
- Despacha-te, antes que apareça
alguém.
- Eu sei! Eu sei! – geme Ana,
apressando-se a trocar de roupa.
Em pouco tempo, os dois saem
daquele sítio. João acompanha Ana até ao piso superior para levá-la ao comboio,
arrastando a mala. Ana tira-lhe a mala da mão e ultrapassa-o. Olha rapidamente
para ele e diz, sem parar o passo:
- Obrigada por tudo… - e avança
a correr, deixando-o para trás.
Sobe as escadas rolantes,
saltando os degraus o mais que podia. A saia nova ainda não estava ajustada ao
corpo! A mala parece mais pesada agora! Merda! Os degraus inferiores não deixam
a mala subir à mesma velocidade! A falta de força nos braços faz com que Ana
largue, sem querer, a pega da mala, ao tentar puxá-la para cima. O efeito acaba
por ser o contrário. Ana vê a sua a pega da mala retrair e esta a cair pelos
degraus abaixo. Sem saber o que fazer, dado que os degraus continuam a subir
mas a mala parece querer descer, olha para cima e para baixo. Um dos
transeuntes que passava no topo, apercebendo-se da situação, acorre a carregar
no “stop” de emergência das escadas rolantes.
- Não! – grita Ana.
E as escadas param
imediatamente. Sem agradecer, pois pensava que a mala poderia ficar parada num
dos degraus e subir de volta, desce as escadas para ir de encontro ao seu
pertence e trazê-lo de volta. Feito isto, volta a subir, carregando-o ainda com
mais esforço, degrau a degrau. Tem ainda mais um lanço de escadas. Não
rolantes. Subindo cada degrau como se a sua vida disso dependesse, chega ao
último da gare correspondente à linha de saída do comboio apenas para ver este
já de portas fechadas, a circular. Ao passar a última carruagem, os cabelos
ainda esvoaçam. Suspira. Olha para o chão. Surgem junto aos seus pés uns
sapatos de homem. Ao seu lado, um respirar ofegante. João.
***
Passou pouco desde as sete da
noite. Ana está confortavelmente sentada numa poltrona da loja do “rent-a-car”.
João está do lado de fora, a falar ao telemóvel. Supõe que poderá estar a dar
alguma satisfação à família, como é lógico. Vai chegar mais tarde a algum
compromisso que poderia ter. Mas foi simpático o suficiente para assumir uma
parte da culpa e insistir em dar boleia a Ana para o Alentejo. Já que ficava no
caminho. Ela não recusou. João pareceu entusiasmado assim que ouviu “Évora”
sair da boca de Ana como sendo o seu destino de viagem. Era pior se fosse para
outro ponto do país! Nesse caso, não lhe poderia dar boleia! E agora, para além
de se sentir prestável, ainda podia usufruir da companhia dela durante mais
algum tempo. Mas ela estava mais concentrada a pensar em toda a situação. Em
ter-se deixado envolver num engate daqueles e perder o último comboio para
Évora. De facto, cada um perdeu o seu comboio. E tudo por causa do tempo que
perderam na diversão.
- Devemos chegar a tempo, se
formos depressa. – diz ele, entrando na loja. – Vamos, o carro está estacionado
no parque.
Em alguns minutos, estão a sair.
Rumo ao Sul. E agora não há mala para arrastar. João conduz. Ana olha pelo
vidro, ainda a pensar como foi parar àquele assento. Nem repara na cara de
feliz que João exprime. Mas predomina o silêncio entre os dois.
O traço descontínuo da
auto-estrada vai passando rapidamente. Os olhos de Ana já estão cansados. O
mesmo cenário. Já é altura de olhar para o outro lado. Ao virar a cabeça,
observa o rapaz. Bonito. Atraente. Só agora é que repara nas feições dele.
Sorri para dentro. Subitamente, é apanhada em flagrante. João sorri-lhe de
volta.
- Desculpa por isto tudo. – diz
ele. – Não foi propositado, mas por outro lado… ainda bem.
- Pois… Podia ter sido pior.
- Mas continuo a adorar a tua
companhia.
Ana não responde, mas ele prossegue:
- Agora que estou a levar uma
estranha num carro que não é meu… Ou seja… Uma vez que estamos em território
neutro… - e silencia.
- Sim? – pergunta, curiosa.
- Queres dizer-me o que fazes da
vida?
Ana suspira e acede.
- Sou advogada.
Sente o telemóvel a vibrar.
Desta vez não é uma mensagem de texto. É uma chamada! Retira o telefone da mala
e atende. Era a sua tia Rosa. João aguarda pelo fim do discurso.
- Sim, tia… já estou no comboio.
– olha para João e deita a língua de fora, fazendo este rir silenciosamente. –
Não, não é preciso! Eu apanho um táxi na estação. Não se preocupe, eu tenho a
morada. Até logo, então.
Desliga.
- Bem, já percebi que não vais
para Évora em trabalho. – afirma João, convencido.
- Pois não. Vou visitar a
família. Pensei que isso me faria bem, largar o trabalho por uns dias.
Infelizmente, o meu trabalho é sempre no mesmo sítio. O mesmo já não se pode
dizer do teu.
- Ah, pois não! Eu ando sempre
cá e lá.
- E não me chegaste a dizer o
que fazias… - indaga ela. – Tivemos uma falha na comunicação…
- Sim, pois foi. Então, trabalho
numa empresa de importações e exportações. Sabes como é… Negócios, viagens,
hotéis, aviões, comboios… - recosta-se para o lado dela com a cabeça. - … ou a
perda deles.
Ri-se, mas não obtém resposta
igual. Esperava que Ana compactuasse e achasse piada à situação. Mas não era o
caso. Tenta animá-la, puxando cada vez mais pela conversa.
- E casar?... Um dia destes?
- Não tenho tempo para pensar
nisso.
- Bonita como és… não seria
difícil.
- Olha, não queres mudar de
assunto?
- Pronto, desculpa. – responde
ele. – Não queria ofender. Só te estava a querer dizer que uma mulher como tu
deve ter potenciais interessados…
- Não tenho tempo para amar.
João surpreende-se com a
afirmação e decide investir noutro nível.
- Mas tens tempo para fazer
amor… - insinua, apertando a língua com os lábios.
- Toma mas é atenção à estrada.
- Só preciso de uma mão para
segurar o volante.
Silêncio.
Continua o silêncio.
Lentamente, João debruça a mão
direita sobre a perna de Ana. E ela permite, embora um pouco incomodada. A mão
vai puxando muito lentamente a saia para cima e passando os dedos por entre as
pernas, vai afastando-as. Ana deixa-se levar, fechando os olhos. Já os dedos
dele tocam na roupa interior. Se não fosse aquele pequeno pedaço de tecido,
estariam a penetrá-la. Mas estes dedos são mais capacitados do que ela pensava
e rapidamente contornam o bloqueio, puxando-o e invadindo a parte interior. Já
estão a entrar. Ana agarra o cinto de segurança com força, apertando-o contra
si. João masturba-a lentamente, provocando-lhe arrepios. Já não está totalmente
sentada, pois a cintura faz força para se levantar. Com cada vez mais
intensidade, os dedos percorrem o interior da vagina, estimulando todos os sentidos
de Ana, fazendo-a ofegar e gemer. Não muito tempo até ela fazer sinal para
interromper, pegando-lhe no pulso. João olha para ela, sorri, retira os dedos e
encosta-os aos seus próprios lábios, lambendo-os. De seguida, trinca os lábios
de prazer, voltando a olhar de frente para a estrada. O telemóvel está a tocar,
mas desta vez ninguém o ouve. Continua com o som desligado, apenas a vibrar.
Prosseguem caminho, em silêncio. Só a cabeça de Ana não está em silêncio. Algo
a incomoda.
***
Falta pouco para chegar a Évora.
A auto-estrada ficou para trás há um bom bocado. Já é noite. João parece
ansioso. Ana sente isso e pede-lhe para parar o carro. Estacionam perto de umas
casas. Suspirando, ela dobra-se no banco, afaga o cabelo, levanta a cabeça e
observa o rapaz. Suspira novamente.
- Vou ter de ser sincera
contigo…
Ele, mostrando-se interessado,
sorri e agarra na mão dela. Ana retrai-se e interrompe qualquer movimento,
começando a discursar.
- Espera, deixa-me falar. – e
prossegue pausadamente. – Quero que saibas que estou-te muito agradecida por me
teres dado boleia para cá. Nunca pensei que hoje fosse acontecer o que
aconteceu, mas espero que não leves isto em conta, pois não significa nada. Eu
e tu não somos nada…
- Joana… - interrompe.
- Não! Deixa-me falar! Eu não… -
aguarda uns segundos e prossegue. – Eu não estou solteira… ainda. Até há uns
dias atrás, estive casada com um homem. Quer dizer, ainda sou casada, mas para
mim aquilo terminou…
- O que aconteceu? – voltou ele
a interromper.
- São coisas da vida… és muito
novo para entender… Casámo-nos muito cedo, fartámo-nos muito cedo um do outro,
acabámos por seguir vidas diferentes, mais por causa do trabalho… Ele
empenhou-se demais no trabalho, se calhar eu também… Éramos duas pessoas muito
diferentes a viver na mesma casa. E mal nos víamos. Ah! Sim… E eu não sou
advogada. Sou empresária e tenho a maior parte do meu tempo ocupado.
- Percebo… - murmura o rapaz,
com um ar mais comprometido.
- Talvez percebas, não sei… Mas
quero que vejas isto como uma coisa que aconteceu e que não voltará a
acontecer. Nunca me vi numa situação destas. Gostei, sim. Mas ficamos por aqui.
- Eu entendo e também vou ser
sincero contigo. Espero que não fiques chateada…
Ana acena com a cabeça e deixa-o
falar.
- Eu também gostei muito de
estar contigo e sei que não poderei voltar a estar… Porque tenho namorada…
Não muito surpreendida, Ana
pergunta:
- E ela estava em Lisboa, certo?
- Não. Ela está em Faro… à minha
espera. Fui telefonar-lhe a dizer que vou visitar os meus pais a casa…
Ana interrompe.
- Pronto, tudo bem. É a tua vida. Eu não preciso de saber,
portanto não precisas de me dizer. Eu é que me estava a sentir mal com a
situação. A verdade é que a história com o meu marido não ficou resolvida.
Envolvi-me contigo porque não tinha sexo há muito tempo. Há anos, por acaso.
Achei-te um rapaz muito giro e atraente e agarrei-me ao momento. Mas foi só
isto… Desculpa…
- Não tens de pedir desculpa. O porco aqui sou eu. Eu é que
tenho uma relação boa e ando a tentar estragá-la, não sei porquê… Talvez por
tédio…
- E tens tempo para isso? Pareceste-me ser muito ocupado…
- Também não fui verdadeiro contigo nesse aspecto… Eu nem
sequer trabalho… Sou estudante em Faro, na universidade.
- O quê?! Mas que idade é que tu tens? – pergunta Ana,
exaltada.
João respira fundo e responde:
- Vinte e três…
Ana revira os olhos e suspira.
- Bem… está provado que isto foi um erro. É melhor irmos
embora daqui.
- Espera… Tenho mais uma coisa para te dizer…
- Não! Não quero ouvir mais nada. Desculpa, mas é melhor
ficarmos por aqui, mesmo. Guardamos isto para nós e continuamos com a nossa
vida.
- Mas eu gostava de voltar a ver-te… Ou pelo menos, poder
falar contigo…
- Mas porquê? Somos estranhos um para o outro!
- Eu sei! Mas gostei mesmo de ti, de te conhecer… Não é o
sexo que me interessa, mas sim o que tu és… E quero o melhor para ti… Acho que
és metade do que dizes… E muito mais do que pensas…
- Desculpa, João, mas é melhor irmos embora.
- Mas deixa-me ao menos…
- Não! – interrompe Ana. – Vamos, por favor! A estação é já
ali à frente.
O rapaz cala-se e acata a ordem. Ana não deixa de pensar na
“metade do que ela seria”… Será que ele percebeu que o falso nome que ela lhe
teria dito era mais do que o seu verdadeiro? Mas nem era bem metade… Raios
partam o puto! No que eu havia de me meter… Questionou-se se deveria dizer o
seu nome. Concluiu que não. Não valia a pena.
Alguns minutos depois, chegam perto da estação e Ana faz
sinal para ele parar antes. Ao encostar, Ana mete a mão à porta para sair.
Respira fundo.
- Aponta o meu número. Diz-me depois se chegaste bem…
O rapaz, sorrindo, pega no seu telemóvel e guarda o número
que lhe é indicado e com o nome Joana. Ela sai, olhando para João com um leve
sorriso. Abre a porta de trás para tirar a mala de viagem, fecha a porta e
segue pelo passeio, sem voltar a olhar para o carro, dirigindo-se a uma praça
de táxis. João ficou parado, dentro do carro. Observou Ana a entrar num táxi e
seguir caminho. Ainda com o telemóvel na mão, decide telefonar.
Dentro do táxi, Ana sente o
telefone a vibrar. Lembra-se então que poderia ser a tia Rosa a tentar saber
onde ela estaria. Ao pegar no telefone, este desliga-se. Pudera, com tantas
mensagens do Mário a entrar! Aquele estúpido! Deve estar tão arrependido! Mas
Ana não teve tempo de ver sequer quem lhe estava a ligar.
Finalmente, a casa da tia Rosa!
A fome já aperta, mas a vontade ir à casa de banho é maior. Até vai parecer
mal, entrar assim em casa da senhora, que não vê há quase vinte anos e pedir
logo para usar a sanita! Ah! A tia Rosa… Aquela mulher da família, sempre
disposta a ajudar o próximo, a única que deitou a mão a Ana. Não fosse a mãe
desta ir logo a correr contar sobre o divórcio da filha assim que soube. Foi o
que motivou a viagem de Ana a Évora, cidade que não visitava desde criança.
Estar com a família, da qual estivera sempre afastada, desde que os pais se
mudaram para Lisboa. Foi a própria tia Rosa que sugeriu que a sobrinha viesse
passar uns dias ao Alentejo. E era mesmo disso que Ana estava a precisar!
Sai do táxi em direcção à porta
de entrada. Bate à porta e em pouco tempo a sua tia a recebe com todo aquele
típico acolhimento português, ignorando por completo o motivo da visita, pois
ninguém tem nada a ver com isso. O que interessa é que a sobrinha Ana veio para
ficar uns dias e espairecer com os ares alentejanos. Após toda a calorosa
recepção, com o tio a falar muito alto e os primos de braços cruzados a olhá-la
de alto a baixo, Ana pergunta à tia onde é a casa de banho. Mas não sem antes
lhe pedir para ligar o telemóvel a uma tomada para carregar um pouco. Ao entrar
no compartimento, senta-se na sanita e respira fundo, pensando no dia que teve,
na experiência que passou. Agora tudo parece tão rápido. Começa a rir-se
sozinha, lembrando-se de alguns pormenores mais sórdidos. A pele dele. As mãos
dele. Aquele rabo! Todo ele perfeito. Mas não neste mundo. Não no meu mundo. A
memória é tão insistente nos pormenores, que Ana consegue sentir o perfume de
João, tal e qual como sentiu no elevador do centro comercial. Ainda consegue
sentir o cheiro dele nela própria. Lava as mãos, olhando-se ao espelho. Já fiz
a porcaria. Já me vinguei. A partir de agora: vida nova.
Prepara-se para sair, ouvindo o
reboliço que páira na sala. Metade da aldeia está a chegar para ver a rapariga!
A mesa está servida para cerca de dez pessoas. Ainda não é hoje que vai haver
paz!... Abre a porta e vira para o corredor onde, em cima de uma pequena mesa,
está o telemóvel a receber carga. Liga-o. Lembrou-se que não tinha ficado com o
número do rapaz, sentindo uma enorme vontade de lhe pedir novamente desculpa.
Esperava, portanto, por uma mensagem dele quando este chegasse a Faro.
No ecrã aparece informação de
trinta e duas mensagens por ler e de meia dúzia de chamadas não atendidas. Ao
abrir a lista de chamadas, repara que as últimas foram da tia Rosa e todas as
outras do estúpido do Mário.
- Tia Rosa, tentou ligar? –
grita Ana do corredor.
A tia não responde e Ana decide,
calmamente, aceder à caixa de entrada de mensagens de texto. São todas do
Mário. Mário. Mário. Mário. Mário. Mário… Excepto a mais recente. De um número
que ela não tem guardado. É dele! É o João! Eu sabia!
Caminhando pelo corredor muito
lentamente enquanto que lia a mensagem, ignorando o barulho que vinha da sala,
com tanta gente à mistura e tudo em tom de festa, a tia Rosa vai passando por
ela várias vezes, transportando os tachos de um lado para o outro e
respondendo.
- Sim, tentei há um bocado…
“Joana,
não consegui aguentar e tinha de te dizer alguma coisa agora. Estou neste
momento sentado no carro e não consigo sair daqui sem te dizer isto…”
- … mas parecia que ficaste sem bateria, porque a chamada
foi abaixo…
“Foste
muito especial para mim e não quero que penses que quero algo sério contigo. Como
te disse, tenho namorada e nem para ela sou fiel…”
- … ainda pensei em ligar outra vez, mas pensei logo que
devias estar a chegar…
“Fui
a Lisboa para me encontrar com uma rapariga que conheci pela net, mas nem
aconteceu nada porque arrependi-me e quis voltar para Faro…”
- … depois a tua prima Célia
ligou a dizer que chegava atrasada…
“Não
me deixaste falar no carro, mas eu ia dizer que os meus pais são daqui de Évora
e vou aproveitar para ficar aqui este fim de semana para a minha namorada não
desconfiar…”
- … e olha! Nem imaginas! O teu
primo Jorge também ligou a seguir porque veio cá para nos ver este fim de
semana…
“Espero
que fiques bem e que digas qualquer coisa quando te apetecer…”
- … deve estar aí a chegar, diz que veio agora do Algarve.
“Já
agora… quero que saibas que o meu nome verdadeiro é Jorge. Beijos… por esse
corpo todo.”
Alguém bate à porta. E Ana já
sabe quem vai entrar por ela. Agora sabe.
escrito por: "Tuga"
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